
A recente sinalização do Ministério da Saúde sobre a incorporação de análogos de GLP-1 (as populares “canetas emagrecedoras”) na rede pública marca um ponto de virada na abordagem da obesidade no Brasil.
Para nós, profissionais da saúde, essa medida traz tanto novas ferramentas terapêuticas quanto o desafio de gerenciar expectativas e aplicar critérios de elegibilidade rigorosos na prática clínica.
Com a provável alta demanda nos consultórios e ambulatórios, entender o desenho dessa política pública é fundamental para orientar os pacientes de forma realista e baseada em evidências.
Então vamos entender como as canetas emagrecedoras serão fornecidas pelo SUS:
Critérios de Elegibilidade
Diferente do mercado privado, a distribuição no SUS não será universal ou puramente estética. O Ministério da Saúde desenhou uma estratégia focada em custo-efetividade e no manejo de alto risco clínico. O público-alvo inicial está restrito a:
- Pessoas com obesidade Grave e Refratária: Pacientes com Índice de Massa Corporal (IMC) elevado (tipicamente grau 3 ou acima de 40 kg/m²).
- Manejo de Comorbidades: Indivíduos com fenótipo de alto risco cardiovascular, diabetes tipo 2 descompensado ou apneia obstrutiva do sono grave associada.
- Otimização Pré-Operatória: Pacientes que já estão na fila de espera para a cirurgia bariátrica e necessitam de perda ponderal aguda para redução do risco cirúrgico.

O Fluxo de Prescrição
O acesso ao medicamento seguirá um protocolo de Diretrizes Terapêuticas (PDT) estrito, exigindo do profissional uma conduta detalhada:
- Abordagem Multidisciplinar: A prescrição estará atrelada à Atenção Primária e Especializada, exigindo que o paciente mantenha o acompanhamento com nutricionistas e psicólogos.
- Avaliação de Responsividade: O protocolo deve prever critérios de interrupção do tratamento caso o paciente não atinja metas mínimas de perda de peso (ex: 5% em 12 semanas), otimizando o recurso público.
- Monitoramento de Farmacovigilância: Devido ao ganho de escala, o rastreamento de efeitos adversos gastrointestinais e o risco de perda de massa magra crônica deverão ser reportados e acompanhados de perto pelas equipes de saúde.

A implementação de uma tecnologia de alto custo no SUS exige uma validação rigorosa de sustentabilidade econômica, e o cenário atual divide-se em duas frentes principais.
Na primeira, o Ministério da Saúde está conduzindo um projeto-piloto em 2026 (Real-Bari), que consiste em um estudo clínico e de impacto orçamentário para acompanhar 250 pacientes que utilizam a semaglutida. Esse desenho observacional serve especificamente para mensurar a adesão ao tratamento e a redução de desfechos clínicos duros, como o número de internações.
Paralelamente, ocorre o trâmite na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde – CONITEC, uma vez que a incorporação definitiva do medicamento e a publicação do Protocolo Clínico oficial ainda dependem do parecer final dessa comissão no SUS. Por essa razão, ainda não há uma dispensação imediata da terapia na rede básica de saúde.

Projeto Real-Bari
Real-Bari é um projeto-piloto do Ministério da Saúde, iniciado em 26 de junho de 2026 em Porto Alegre (RS), que avalia a distribuição gratuita de canetas emagrecedores à base de semaglutida pelo SUS.
Visão Geral do Projeto-Piloto
Objetivo Geral: avaliar a efetividade clínica, a segurança e a viabilidade econômica (custo-efetividade) do uso da semaglutida como uma ponte terapêutica para pacientes com obesidade grave que aguardam na fila para a cirurgia bariátrica no SUS.
Critérios de Inclusão
Para ingressar no protocolo do projeto-piloto, o paciente deve cumprir os seguintes requisitos regulamentares:
- Vínculo com o Sistema: Estar devidamente matriculado e aguardando em fila ativa de espera para a realização de cirurgia bariátrica no SUS.
- Critérios Antropométricos e Clínicos:
- Apresentar Índice de Massa Corporal (IMC) ≥ 40 kg/m²; ou
- Apresentar IMC ≥ 35 kg/m² associado a pelo menos uma comorbidade grave decorrente da obesidade (como Diabetes Tipo 2, hipertensão arterial de difícil controle, apneia do sono ou alto risco cardiovascular).
- Idade: Adultos (geralmente acompanhando as diretrizes nacionais para o tratamento cirúrgico e ambulatorial do SUS)
O Real-Bari foi desenhado sob o formato de um ensaio clínico pragmático. Isso significa que ele foi estruturado para mimetizar exatamente a rotina de atendimento e a prática assistencial do “mundo real” no SUS, e não um ambiente altamente controlado de laboratório.
- Grupo Intervenção: Composto por 250 pacientes que recebem o tratamento farmacológico com as canetas de semaglutida aplicadas semanalmente, além do acompanhamento clínico tradicional.
- Grupo Comparador: Composto por uma coorte contemporânea (cerca de 57 indivíduos elegíveis) que permanece recebendo exclusivamente o cuidado habitual da fila de espera ambulatorial, sem o uso do medicamento.
O estudo tem duração total prevista de 2 anos.
Você pode ler o estudo completo aqui: https://ensaiosclinicos.gov.br/rg/RBR-6gjvsy3

Quais canetas/medicações que serão disponibilizadas?
É importante esclarecer que o Ministério da Saúde ainda não definiu uma lista de marcas comerciais específicas que serão distribuídas nas farmácias do SUS. O foco regulatório e científico do governo está direcionado aos princípios ativos
Atualmente os seguintes princípios ativos estão sendo estudados:
Semaglutida: É o principal foco da política pública atual e a única substância utilizada oficialmente no projeto-piloto Real-Bari, conduzido pelo Ministério da Saúde. No mercado privado, ela é o princípio ativo de medicamentos consolidados como o Ozempic e o Wegovy.
Genéricos e Biológicos (Produção Nacional): Com a recente queda de patentes no mercado brasileiro, o governo planeja viabilizar a sustentabilidade financeira do programa por meio de parcerias de produção local e transferência de tecnologia. Há um contrato firmado entre a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a farmacêutica EMS para a produção nacional de semaglutida e liraglutida (princípio ativo do Victoza e Saxenda).
Parcerias com a Indústria: O anúncio recente feito pelo governo ocorreu durante uma visita ao complexo da Eurofarma, que produz o Poviztra (uma semaglutida biológica desenvolvida em parceria com a Novo Nordisk). Além disso, a Novo Nordisk submeteu uma proposta formal à Conitec oferecendo o Wegovy com desconto expressivo para o sistema público.
Para orientar os pacientes
Para orientar os pacientes no consultório de forma empática e realista, o profissional de saúde deve gerenciar as expectativas, deixando claro que o medicamento ainda não está disponível nos postos de saúde.
Explique que o governo federal anunciou a intenção de oferecer o medicamento e iniciou os estudos técnicos, mas ainda não há uma data de início e nenhuma caneta está sendo distribuída na rede básica de saúde no momento.
Também destaque que, quando a distribuição começar, ela será restrita. Deixe claro que o foco do SUS será tratar casos de alta complexidade médica e não o uso estético. Você pode antecipar que os critérios principais deverão incluir:
- Pacientes que já estão na fila de espera para a realização de cirurgia bariátrica.
- Pacientes com obesidade grave (grau 3) ou refratária.
- Presença de doenças graves associadas ao peso (como problemas cardíacos ou diabetes descompensado).
Outro ponto também é reforçar que o acesso não será por meio de uma simples retirada na farmácia popular. O paciente precisará estar em acompanhamento regular na rede pública (SUS), passando por avaliações médicas e multidisciplinares (com nutricionistas e psicólogos) para receber a prescrição oficial dentro dos protocolos do governo.
Por fim, aproveite o momento para engajar o paciente nas estratégias que já estão disponíveis no SUS. Reforce a importância de continuar ou iniciar o tratamento focado em mudanças no estilo de vida, reeducação alimentar, atividade física e, se indicado, as opções de medicamentos orais que a rede pública já disponibiliza para o controle do peso e do diabetes.
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