
Infelizmente, as notícias de agressões físicas e verbais contra médicos, enfermeiras, e outros profissionais da saúde, se tornaram quase rotina nos nossos grupos. Um soco, um empurrão, um xingamento…o que deveria ser um espaço de cura, muitas vezes, vira um cenário de medo.
Por que chegamos a esse ponto? De quem é a culpa? E, o mais importante, o que a gente pode fazer para mudar issox’?
Por que agressões aos profissionais de saúde acontecem?
Não existe uma resposta única, mas sim uma soma de fatores que gera uma “panela de pressão”:
- A dor e a vulnerabilidade: O paciente e a família estão em um momento de estresse extremo. O medo da perda ou o sofrimento físico podem se transformar em agressividade mal direcionada.
- O sistema em colapso: Longas esperas, falta de insumos, hospitais superlotados e falta de leitos. O paciente vê no profissional a “cara” do sistema e descarrega nele a frustração que deveria ser direcionada à gestão.
- A desvalorização da autoridade técnica: Vivemos tempos de desconfiança na ciência e nos profissionais, o que diminui o respeito que antes era a base da relação paciente-saúde.

A culpa não é do médico nem da enfermeira
Se você faz plantão em porta de emergência ou em hospitais públicos e conveniados, sabe exatamente do que estou falando: o momento em que a falta de organização da gestão estoura na sua cara, e o paciente, com razão em sua dor, escolhe você como o culpado.
A gestão falha no escritório, com ar-condicionado e café fresco, mas quem recebe o grito, o dedo em riste e, às vezes, a agressão, é você que está ali de jaleco tentando dar conta do impossível.
Muitas vezes, a revolta do paciente não é contra a sua conduta clínica, mas contra um sistema que ele não consegue enxergar. O problema é que o gestor é uma figura abstrata para quem está sofrendo; o médico, o enfermeiro e o técnico são figuras reais, de carne e osso.
- A falta de insumos: Quando falta o soro, o esparadrapo ou o antibiótico, o paciente não pensa no processo de licitação que travou. Ele pensa: “O médico não quer me tratar”.
- A superlotação por falta de rede: Se as UBSs não funcionam, a emergência trava. O paciente espera seis horas para ser atendido e, quando entra no consultório, descarrega toda a frustração em quem finalmente abriu a porta.
- A falta de leitos de retaguarda: Você dá o diagnóstico, estabiliza, mas não tem para onde mandar o paciente. Ele fica no corredor. Para a família, a culpa é da “má vontade” da equipe de plantão, e não da falta de investimento em infraestrutura.
Por que agressões contra o médico?
Existe um fenômeno psicológico chamado deslocamento. O paciente está com medo, com dor e se sentindo impotente. Como ele não pode brigar com o Secretário de Saúde ou com o Diretor do Hospital (que ele nem sabe quem é), ele briga com a autoridade mais próxima: você.
Nesse cenário, o profissional de saúde acaba exercendo uma função que não foi ensinada na faculdade: a de para-raios de falhas sistêmicas. Você gasta 50% do seu tempo de consulta explicando por que o exame vai demorar ou por que não há previsão de vaga, e apenas os outros 50% cuidando da saúde do paciente. Isso gera um desgaste mental absurdo e é um dos caminhos mais rápidos para o burnout.
Os Conselhos Federais: “Agressões a profissionais da saúde não faz parte do Tratamento”
É importante saber que os nossos órgãos de classe — como o COFEN/CORENs, o CFM/CRMs, entre outros— estão finalmente tirando esse elefante da sala e transformando a nossa indignação em campanhas oficiais de proteção.
Essa não é mais apenas uma conversa de corredor; virou uma pauta institucional urgente. Os conselhos federais e regionais têm se movimentado em várias frentes para tentar frear essa escalada de agressões a partir de campanhas de conscientização. Você já deve ter visto cartazes ou vídeos com o mote “Quem cuida merece respeito”. O objetivo é lembrar à sociedade que o profissional de saúde está ali para exercer uma função técnica e humana, e que o ambiente hospitalar exige uma conduta ética de todos, inclusive de quem é atendido.
Além disso, muitos regionais criaram observatórios de violência ou botões de denúncia em seus sites. A ideia é mapear onde as agressões ocorrem com mais frequência para cobrar das prefeituras e estados uma segurança mais ostensiva nesses locais. Essas campanhas mostram que a falha estrutural não pode ser descontada em quem está de plantão.
Comunicação: Um “sedativo” eficaz contra o conflito
A gente acabou de falar sobre como o médico e a equipe acabam virando para-raios de problemas de gestão, né? Mas existe uma ferramenta que, embora não resolva a falta de leitos ou de insumos, é capaz de desarmar bombas relógio antes que elas explodam: a comunicação assertiva.
Muitas vezes, o que leva o paciente ou o acompanhante à agressão não é apenas a demora, mas o silêncio. O silêncio no corredor do hospital soa como descaso, e o descaso é o combustível da revolta.
Quando um paciente está na espera, ele não está apenas “gastando tempo”. Ele está sentindo dor, medo e incerteza. Sem informação, a mente dele preenche as lacunas com os piores cenários possíveis: “Eles esqueceram de mim”, “Aquele outro passou na frente porque é conhecido”, “Meu caso não é importante”.
A comunicação entra aqui como um ato terapêutico. Informar é cuidar.
- O “Porquê” da Espera: Explicar que a demora se deve a um atendimento de emergência grave (o famoso “chegou um vermelho”) humaniza o processo. As pessoas tendem a ser mais tolerantes quando entendem que o atraso tem um motivo ético e justo.
- A Gestão de Expectativas: Dizer “vai demorar um pouco” é vago. Dizer “estamos com 40 minutos de atraso devido a uma intercorrência, mas sua ficha está aqui e você é o próximo” dá ao paciente uma sensação de controle.
Métodos que desarmam o conflito
Como profissionais, podemos usar algumas estratégias de comunicação que funcionam como verdadeiros anteparos de proteção:
- Escuta Ativa (Validar o Sentimento): Antes de explicar a falta de material, diga: “Eu entendo que o senhor está frustrado e com dor, e eu também gostaria que esse exame fosse mais rápido”. Validar o sentimento retira a barreira de “nós contra eles”.
- Linguagem Não-Verbal: Às vezes, o jeito que a gente segura o prontuário, o tom de voz apressado ou a falta de contato visual gritam “não quero estar aqui”. Manter o corpo voltado para o paciente, mesmo que por 30 segundos, muda a percepção de acolhimento.
- A Técnica do “Sanduíche”: Comece com algo positivo ou empático, dê a notícia difícil (o problema da gestão) e termine com uma solução ou o próximo passo. “Estamos atentos ao seu caso; infelizmente o sistema de exames está lento hoje, mas já pedi prioridade para assim que estabilizar”.
Cuidar de quem cuida não deveria ser um luxo, mas uma premissa básica. A gente acorda para salvar vidas, não para colocar a nossa em risco. Se você já passou por isso, saiba que você não está sozinho e que a culpa nunca é sua.
Você já se sentiu inseguro no seu local de trabalho ou já presenciou alguma cena de agressão? O que o seu hospital ou clínica fez para te proteger?
A segurança no trabalho é um direito inegociável. Vamos debater estratégias para exigir ambientes de trabalho mais seguros lá nos comentários
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