O governador de Mato Grosso (MT), Otaviano Pivetta, anunciou uma proposta de integrar o SAMU ao Corpo de Bombeiros, com o objetivo declarado de “reduzir a máquina pública”.
Para nós, que vivemos o dia a dia da saúde, essa notícia acende um alerta vermelho. Afinal, estamos falando de otimização de recursos ou de uma mudança que pode comprometer o desfecho clínico dos nossos pacientes? O Cofen já se posicionou de forma técnica e firme, e vale a pena a gente destrinchar essa análise.
O SAMU não é apenas “transporte”
O ponto central que precisamos entender — e que o Cofen reforça — é que o SAMU não é um serviço de logística, mas uma política pública de saúde estratégica.
A Regulação Médica: A grande diferença entre o SAMU e um modelo puramente operacional é a Central de Regulação. É lá que um médico classifica o risco, define o recurso e, mais importante, organiza a “vaga” no hospital de destino.
A Equipe Multiprofissional: O SAMU conta com protocolos clínicos baseados em evidências, aplicados por enfermeiros, médicos e técnicos especializados em urgências que vão muito além do trauma, como emergências obstétricas, psiquiátricas e pediátricas.
Integração vs. Substituição
O Cofen é muito claro: a integração entre as instituições é desejável, mas ela deve ser complementar e não substitutiva.
Os Bombeiros são gigantes no salvamento, no desencarceramento e no controle de cenas de risco. No entanto, transferir as atribuições típicas do SAMU para uma instituição que já lida com falta de efetivo e alta demanda operacional pode gerar um gargalo perigoso.
O risco real: Sem a ampliação da capacidade instalada, essa “fusão” pode resultar em aumento do tempo-resposta. E na urgência, como a gente sabe, o tempo é uma variável clínica crítica: tempo perdido é neurônio perdido, é miocárdio perdido, é vida perdida.
SAMU ou Bombeiros?
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência é, essencialmente, uma extensão do hospital que vai até o paciente.
Perfil: Clínico e traumático.
Quando chamar: Casos de natureza estritamente médica, como dores no peito (infarto), suspeita de AVE, crises convulsivas, falta de ar grave, intoxicações ou transferências entre hospitais.
Diferencial: Possui a Regulação Médica. Quando você liga, um médico atende, faz a triagem e decide se envia uma Unidade de Suporte Básico (USB, com técnicos e condutor) ou uma Unidade de Suporte Avançado (USA, a “UTI móvel” com médico e enfermeiro).
Já o Corpo de Bombeiros atua em situações onde, além do atendimento à vítima, existe um perigo externo ou a necessidade de força física e equipamentos especiais.
Perfil: Trauma e salvamento.
Quando chamar: Acidentes de trânsito com vítimas presas em ferragens, incêndios, desabamentos, soterramentos, choques elétricos de alta tensão ou resgates em locais de difícil acesso (altura ou água).
Diferencial: Eles são especialistas em estabilização de cena. Se o local oferece risco (fogo, vazamento de gás, estrutura caindo), o Bombeiro entra primeiro para garantir a segurança antes de qualquer atendimento médico começar.
Onde eles se encontram?
Muitas vezes, você verá as duas viaturas no mesmo local. Em um acidente grave na BR, por exemplo:
Os Bombeiros fazem o desencarceramento (cortam a lataria do carro para tirar a vítima).
O SAMU assume o suporte avançado de vida, estabilizando a parte clínica e medicando o paciente ainda no local.
O que está em jogo para o profissional?
Para nós, essa discussão toca em pontos sensíveis da nossa prática:
Governança Sanitária: A gestão do atendimento deve ser orientada pela segurança do paciente e por protocolos de saúde, não apenas por eficiência administrativa ou militar.
Educação Permanente: O SAMU exige uma atualização constante em ciência e análise clínica que é muito específica da área da saúde.
Segurança Jurídica: Como ficam as competências legais de cada profissional dentro desse novo modelo?
Mudar a estrutura de um serviço que impacta diretamente na sobrevida da população exige transparência e uma análise técnica rigorosa. Reduzir a máquina pública é um objetivo válido, mas ele nunca pode vir às custas da qualidade da assistência ou da segurança de quem está na ponta do atendimento.
O Cofen prometeu acompanhar de perto para garantir que o financiamento do SAMU seja respeitado e que a assistência não sofra retrocessos.
A nossa voz, como profissionais que conhecem a realidade das ambulâncias, é fundamental para que essa “integração” não vire uma precarização disfarçada de economia.
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