
A agitação psicomotora é um dos desafios mais pesados da nossa rotina. É aquele “olho do furacão” onde a gente precisa ser, ao mesmo tempo, técnico, ágil e extremamente calmo, mesmo quando o coração está batendo a mil por hora.
Lidar com um paciente agressivo ou em crise não é sobre “quem manda mais”. É sobre segurança: a dele e a nossa. E, acima de tudo, é sobre entender que, por trás daquela violência, existe um sofrimento que transbordou.
A conduta para o manejo desse tipo de paciente deve envolver toda a equipe, dos profissionais da saúde à equipe de segurança.
O primeiro passo: o ambiente e a palavra
Antes de qualquer agulha, vem o nosso comportamento. O manejo não farmacológico é a nossa primeira ferramenta, e talvez a mais difícil de aplicar no cansaço do plantão:
- A voz que acalma: Falar com autoridade, mas com uma tranquilidade real, mantendo o tom de voz baixo mas firme. O paciente em crise está desorganizado; se a gente grita ou se desespera, a gente vira parte do caos dele.
- Chame a pessoa pelo seu nome ,mantendo o respeito.
- Deixe-a falar livremente sempre demostrando interesse e auxiliando-a, sem julgamentos, sem ameaças.
- Procure identificar sentimentos, necessidades e desejos do paciente. Procure compreendê-la para ajudar.
- Organizando o espaço: Diminuir estímulos, afastar objetos perigosos e garantir que a gente tenha uma rota de saída. Às vezes, mudar a forma como os móveis estão dispostos ou simplesmente abaixar o tom de luz já ajuda a baixar a guarda de quem está em surto.
- Não entenda eventuais insultos como pessoais.
- Considere afastar acompanhantes que possam desetabilizar ainda mais o paciente do local.
- Não fique de costas para o paciente ou se coloque em posição encurralada, sem acesso à saída.
O remédio que acalma, mas não apaga
Quando a conversa não basta, o manejo farmacológico entra em cena. Mas o objetivo aqui mudou: a gente não busca mais o “nocaute” nos dias atuais.
- Tranquilizar vs. Sedar: O ideal é que o paciente fique tranquilo, mas que ainda consiga nos responder. O uso de antipsicóticos e benzodiazepínicos deve ser feito na dose mínima necessária.
- A escolha da via: Se der para ser via oral ou inalada, melhor. A gente evita a via intravenosa (IV) sempre que possível para não quebrar o vínculo de confiança. Imagine o trauma de ser contido para uma picada na veia; isso pode destruir a relação terapêutica por muito tempo. A via intramuscular (IM) fica como nossa segunda opção de segurança.
O recurso extremo: a contenção física
A contenção física nunca deve ser uma punição ou um ato de “calar” o paciente. Ela é um último recurso, usado apenas quando há risco real para ele ou para a equipe. O objetivo principal é proteger o paciente das pessoas ao redor.
Se precisar conter, que seja:
- Ético e técnico: Com critérios claros e equipe treinada.
- Temporário: O paciente deve ser liberado assim que estabilizar, de forma amigável e sem mágoas. É um “estamos fazendo isso para te proteger”, e não “estamos te prendendo”. O ideal é que seja avaliado pela equipe a cada 30 minutos
A equipe para contenção deve ter pelo menos 05 pessoas, que atuam de forma coordenada. Um dos profissionais, que coordena o grupo, deve se manter visível para o paciente durante todo o período. Este profissional também busca tranquilizar a pessoa agitada e transmitir segurança. As outras quatro pessoas atuam simultaneamente em cada membro do paciente, tendo o cuidado de proteger as articulações contra entorses ou distensões.
Os materiais utilizados nas contenções físicas devem ser de tecido largo, não elástico e devem ser resistentes, preferivelmente as faixas específicas de contenção. Devem ser periodicamente verificadas se não estão promovendo garroteamento, edema, ou lesões na pele.
Devem ser presas à base da cama, não às grades laterais, para evitar lesões vasculares e nervosas em decorrência de movimentos.
Antecipando a tempestade: o que observar?
Muitas vezes, a agressividade é o último estágio de um medo ou de uma frustração que não foi acolhida. Se a gente conseguir “ler” os sinais antes, o desfecho pode ser muito mais tranquilo. Então, é bom a gente ficar de olho em:
- A linguagem do corpo: O paciente que não consegue mais ficar sentado, que começa a andar de um lado para o outro ou que aperta as mãos com força. O maxilar travado e o contato visual muito fixo (aquele “encarar”) são sinais claros de que a tensão está subindo.
- A mudança no tom: Não é só o grito. Às vezes, o sarcasmo excessivo, as respostas monossilábicas ou o aumento gradual do volume da voz indicam que a paciência está no limite.
- O “espaço vital”: Se o paciente começa a invadir o seu espaço ou se ele se retrai demais quando você se aproxima, o sinal de alerta deve ligar.
O que a gente pode fazer para desarmar a crise?
- Informação é o melhor calmante: Na saúde, o que mais gera agressividade é o “não saber”. Explicar por que o exame está demorando ou o que vai acontecer no próximo passo tira o peso da incerteza.
- Escuta ativa (de verdade): Às vezes, a gente está tão no automático que não ouve o que o paciente está realmente dizendo. Parar dois minutos, olhar no olho e validar o que ele sente (“Eu entendo que o senhor está bravo com a espera, eu também estaria”) pode desarmar um conflito na hora.
- Cuidado com a nossa postura: Se a gente chega com os braços cruzados, falando “de cima para baixo” ou com pressa visível, a gente pode, sem querer, aumentar a irritação do outro. Manter uma postura aberta e um tom de voz calmo ajuda a “contagiar” o ambiente com tranquilidade.
- Respeite o tempo dele: Se você percebe que o paciente está ficando irritado, evite bombardeá-lo com muitas perguntas ou procedimentos de uma vez, se não for uma urgência. Dê espaço para ele processar.
Referências
Diretoria de Serviços de Saúde Mental – DISSAM. Protocolo: Manejo da Agitação Psicomotora Aguda
Gaynes BN, Brown C, Lux LJ, et al. Estratégias para reduzir o comportamento agressivo em pacientes psiquiátricos [Internet]. Rockville (MD): Agency for Healthcare Research and Quality (EUA); julho de 2016. (Revisões de Efetividade Comparativa, nº 180.) Introdução.
Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK379388/
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