A briga entre o CFM e o CFO

Se você tem acompanhado os bastidores e o noticiário das autarquias de saúde, já deve ter percebido que o tom entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Federal de Odontologia (CFO) subiu drasticamente. O embate, que começou anos atrás com as disputas no campo da harmonização orofacial e procedimentos estéticos, desdobrou-se em um cabo de guerra normativo sem precedentes chegando agora na competência para sedação. O que está acontencendo? Recentemente, assistimos a debates duros sobre os limites anatômicos da região de cabeça e pescoço (como na Resolução CFM nº 2.416/2024 e CFO nº 284/2026) e, mais atual do que nunca, à controvérsia em torno da Resolução CFO nº 295/2026. A nova norma do conselho de odontologia autorizou dentistas com habilitação avançada a realizarem sedação profunda, inclusive por via endovenosa, vedando apenas a anestesia geral. A resposta da classe médica veio de imediato, argumentando que a transição entre a sedação moderada, a profunda e a depressão respiratória é uma linha tênue e volátil, exigindo o suporte e o manejo que cabem ao médico anestesiologista. De um lado, a Odontologia defende a modernização da prática, o alívio da ansiedade do paciente no consultório e o respaldo em sua formação técnica para a região craniomaxilofacial. Do outro, a Medicina invoca a Lei do Ato Médico, alertando para os riscos de morbimortalidade e o perigo de diluir as fronteiras de segurança que protegem o cidadão. A resolução CFO nº 295/2026 A Resolução CFO nº 295/2026 é o marco normativo recente do Conselho Federal de Odontologia que regulamenta de forma detalhada e atualizada o uso de fármacos para sedação em procedimentos odontológicos. Ela substitui e expande normativas anteriores (como a Resolução CFO nº 51/2004), estabelecendo regras rígidas de formação, infraestrutura e protocolos clínicos. Escopo e Níveis de Sedação: Regulamenta o emprego de sedação consciente (leve a moderada) e estabelece os critérios para sedação profunda. Veda expressamente a realização de anestesia geral pelo cirurgião-dentista, mantendo essa como competência exclusiva da Anestesiologia médica. Habilitação Básica vs. Habilitação Avançada: Exigências de Infraestrutura e Monitorização: Estabelece a obrigatoriedade de equipamentos mínimos de monitorização (como oximetria e controle de sinais vitais), medicamentos de emergência/resgate e infraestrutura compatível no consultório ou clínica. Plano de Segurança e Protocolos: Exige a implementação de um Plano de Segurança do Paciente (PSP), incluindo a obrigatoriedade de suporte para acionamento de serviços externos de emergência caso ocorram intercorrências graves. Responsabilidade Ética e Legal: Reafirma que a indicação da sedação, o planejamento e o manejo de eventuais complicações são de responsabilidade direta e privativa do cirurgião-dentista habilitado. Os argumentos de cada lado Pelo lado da Odontologia: O CFO defende que a resolução moderniza a prática odontológica, traz respaldo legal e eleva a segurança do paciente com rigorosos critérios de formação e protocolos baseados em diretrizes internacionais. A classe odontológica argumenta que a sedação em consultórios (sedation dentistry) é uma prática amplamente estabelecida e regulamentada no cenário internacional, especialmente nos Estados Unidos, onde cirurgiões-dentistas utilizam sedação oral e endovenosa para reduzir a ansiedade do paciente com alta taxa de segurança e respaldo de protocolos rígidos das associações americanas. Historicamente, a Odontologia também invoca suas raízes na própria anestesiologia: foi o cirurgião-dentista norte-americano William Thomas Green Morton que, em 1846, realizou a primeira demonstração pública bem-sucedida do uso do éter inalatório para anestesia cirúrgica no Massachusetts General Hospital, revolucionando a medicina e a cirurgia mundial. Pelo lado da Medicina e da Anestesiologia: Por outro lado, anestesiologistas e conselho e sociedade de medicina alertam que a sedação não é um procedimento isento de riscos imprevisíveis. A crítica central é que na própria medicina, nem todo médico possui habilitação para realizar sedação profunda, sendo essa uma competência de alta complexidade que exige treinamento específico. A linha entre a sedação moderada, a profunda e a depressão respiratória involuntária é extremamente tênue. Em casos de rebaixamento excessivo do nível de consciência ou perda de reflexos protetores, o profissional precisa ter domínio imediato do manejo de vias aéreas graves, incluindo a habilidade técnica e a prontidão para realizar uma intubação orotraqueal de emergência ou suporte avançado de vida, cenários que vão muito além do uso de medicação ansiolítica leve. O que você acha? Qual a sua opinião sobre esse tema? Digite nos comentários sua opinião Uma reflexão necessária sobre a prática diária Quando disputas corporativas se transformam em uma batalha de resoluções, liminares e notas oficiais, é fácil perder de vista o ponto mais importante: a segurança de quem está na cadeira ou na mesa cirúrgica. Na rotina da emergência, dos centros cirúrgicos e dos consultórios, quem vivencia a prática sabe que nenhum texto normativo substitui o discernimento técnico e o respeito aos limites da própria formação. A Medicina e a Odontologia são disciplinas históricas, com intersecções anatômicas inevitáveis e que deveriam atuar em cooperação. A ampliação do escopo de atuação de qualquer profissional precisa ser acompanhada por rigor técnico indiscutível, estrutura adequada para gerenciar complicações graves e, acima de tudo, pela responsabilidade de saber exatamente até onde a própria capacitação garante a vida e a integridade do paciente. + Posts…
5 Fisioterapeutas Respondem: Neymar vai jogar a Copa do Mundo?

Enquanto todo mundo nos programas de TV debate o lado tático ou o extracampo, nós que somos da saúde olhamos para o corpo do atleta. O quadro é o seguinte: o Neymar sofreu uma lesão muscular de grau 2 a nível de panturrilha (não especificada) e já acumula mais de 30 dias longe dos gramados e sem contato com a bola, até agora sem previsão de jogar a Copa do Mundo. Para sair um pouco do achismo e trazer ciência para a conversa, fiz uma enquete rápida com 5 profissionais da fisioterapia, com especialidade na área, para entender, do ponto de vista clínico, o que realmente podemos esperar dele nessa Copa do Mundo de 2026. O resultado? Os especialistas ligaram o sinal de alerta máximo. Olhe só o que eles dizem: Como está a lesão de Neymar? Infográfico: Neymar na Copa – Veredito da Fisio ☕ Café na Copa – Painel Clínico Neymar na Copa: O Veredito da Fisioterapia Resultados de enquete realizada com 05 fisioterapeutas após lesão muscular grau 2 ⏱️ Consegue retornar no 3º jogo da Fase de Grupos? Depende totalmente da evolução clínica 80% (4/5) 4 de 5 especialistas Sim, mas com minutagem controlada 20% (1/5) 1 de 5 especialistas 📈 Nível de desempenho esperado caso retorne Muito limitado (40% a 60% do ideal) 80% (4/5) 4 de 5 especialistas Bom, mas abaixo do ideal (60% a 80%) 20% (1/5) 1 de 5 especialistas ⚠️ Maior preocupação no retorno • Nova lesão (Relesão): 60% (3/5) • Perda de explosão: 40% (2/5) 📋 Conduta de Escalação • Banco (entrar no 2º tempo): 60% (3/5) • Não escalaria: 40% (2/5) • Titular imediato: 0% 🎯 O calcanhar de Aquiles da Reabilitação (Mais difícil recuperar) O ponto de maior atrito técnico apontado foi a confiança para acelerar e mudar de direção (40%), seguido de forma dividida por fatores críticos de performance como potência muscular, resistência e a pura falta de ritmo de jogo. Fonte: Enquete interna / Café na Copa. Dados coletados com profissionais atuantes de Fisioterapia. 1. Ele consegue voltar para o 3º jogo da fase de grupos? A maioria prefere a cautela. 4 dos 5 profissionais responderam que dependerá muito da evolução clínica. Apenas um foi um pouco mais otimista, dizendo que voltará a jogar por um tempo no terceiro jogo. Nenhum aposta em um retorno 100% garantido ou folgado. 2. E o desempenho? O que esperar? Para 4 dos fisioterapeutas, o nível dele deve ser “Muito limitado (entre 40% e 60%)”. O impacto de passar um mês parado em um torneio de altíssima intensidade como a Copa do Mundo, é considerado grande ou enorme por quase a totalidade dos fisioterapeutas entrevistados. 3. Os maiores perigos do retorno (O que tira o sono dos fisioterapeutas) Quando o assunto é uma lesão muscular grau 2, o medo não é só o jogador cansar. O buraco é mais embaixo: 4. Titular: Nem Pensar! Se dependesse desse conselho de fisioterapeutas, o técnico Ancelotti ia ter que segurar o craque no banco. Nenhum deles escalaria o Neymar como titular logo de cara. Três profissionais recomendam que ele entre apenas no segundo tempo para testar o ritmo, e dois foram categóricos: não escalariam de jeito nenhum nesse momento. 5. O maior obstáculo para a recuperação A escolha do ponto mais difícil de restaurar após essa parada se dividiu, mostrando a complexidade da reabilitação: O parecer final Tratar atleta de elite é diferente, a biologia deles responde mais rápido e a estrutura ao redor é de primeiro mundo. Mas músculo tem tempo de cicatrização e readaptação, e o calendário da Copa do Mundo n O consenso dos nossos colegas é claro: a pressa para ter o “camisa 10” em campo pode custar muito caro para o resto do campeonato. Apesar disso estaremos totalmente na torcida pela recuperação plena e esse título para sacramentar toda essa vida vitoriosa desse atleta. A ciência não é exata e pode nos surpreender. Se você estivesse na equipe de reabilitação dele hoje, liberava para o terceiro jogo ou segurava o craque para o mata-mata? Vamos debater essa conduta lá no fórum? ☕⚽
Os melhores estetoscópios para a sua prática clínica

Escolher o equipamento certo não é apenas uma questão de estética; é o que define se você vai ouvir com clareza aquele sopro cardíaco sutil ou aquele estertor pulmonar no meio do barulho da emergência, ou se vai terminar o plantão com dor no pescoço de tanto carregar peso. Para ajudar a calibrar o seu ouvido clínico ou escolher o seu próximo companheiro de batalha, preparei um ranking dos 10 melhores estetoscópios do mercado (do pior para o melhor), com as vantagens e desvantagens reais de cada um. Vamos conferir? 10. A Escolha Básica: G-Tech Premium Simples O modelo puramente funcional, focado em quem precisa de um equipamento apenas para o básico da rotina de enfermagem ou técnica. 9. P.A. Med Rappaport O clássico dos clássicos das salas de triagem e kits de estudantes. O famoso modelo de “dois tubos”. 8. BIC Eternity III (Inox Duplo) Uma surpresa nacional em aço inoxidável que entrega uma performance muito digna. 7. MDF Acoustica Deluxe Lightweight Uma marca americana que ganhou o coração de quem busca alta performance combinada com designs exclusivos (como acabamentos em ouro rosé, titânio e padrões coloridos). Este ‘esteto’ é focado no conforto térmico e na leveza para quem passa 24 horas de plantão. 6. Spirit Master Lite Pediátrico “Fun Animal” O rei das alas infantis e da neuropediatria. Chegamos no TOP 05 agora, vamos conferir quais se destacaram? 5. Spirit Pro-Lite Adulto O grande rival do Classic III, muito popular entre estudantes e profissionais de enfermagem e medicina. + Posts E agora entramos para o grupo de ouro que acredito que todos já devem saber de qual marca: Littmann. A Littmann é a referência mundial em acústica e durabilidade, embora exija um investimento mais alto. 4. Littmann Lightweight II S.E. A opção de entrada da marca, muito voltada para triagem e aferição de sinais vitais. 3. Littmann Classic III O queridinho das unidades de internação, ambulatórios e pronto-atendimento. É o modelo mais equilibrado do mercado. 2. Littmann Cardiology IV Desenhado para quem precisa de precisão cirúrgica na ausculta, como cardiologistas, pneumologistas e intensivistas. 1. Littmann Digital CORE (Bluetooth) A revolução tecnológica da ausculta, integrando a acústica da Littmann com a amplificação digital da Eko. Qual devo escolher? No fim das contas, o “melhor” estetoscópio é aquele que atende à sua realidade de trabalho sem pesar no seu orçamento. Se você está na UTI ou na Cardio, o investimento em um Littmann ou MDF avançado se paga em segurança diagnóstica. Se a sua rotina é a correria da triagem e da clínica básica, marcas como Spirit e BIC entregam tudo o que você precisa com dignidade e economia. Toma seu café e cuide bem do seu “esteto”: limpe sempre com álcool 70% entre os pacientes e nunca o deixe solto na bancada da evolução! ☕🩺🔬
Agressão a profissionais da saúde no plantão: por que?

Infelizmente, as notícias de agressões físicas e verbais contra médicos, enfermeiras, e outros profissionais da saúde, se tornaram quase rotina nos nossos grupos. Um soco, um empurrão, um xingamento…o que deveria ser um espaço de cura, muitas vezes, vira um cenário de medo. Por que chegamos a esse ponto? De quem é a culpa? E, o mais importante, o que a gente pode fazer para mudar issox’? Por que agressões aos profissionais de saúde acontecem? Não existe uma resposta única, mas sim uma soma de fatores que gera uma “panela de pressão”: A culpa não é do médico nem da enfermeira Se você faz plantão em porta de emergência ou em hospitais públicos e conveniados, sabe exatamente do que estou falando: o momento em que a falta de organização da gestão estoura na sua cara, e o paciente, com razão em sua dor, escolhe você como o culpado. A gestão falha no escritório, com ar-condicionado e café fresco, mas quem recebe o grito, o dedo em riste e, às vezes, a agressão, é você que está ali de jaleco tentando dar conta do impossível. Muitas vezes, a revolta do paciente não é contra a sua conduta clínica, mas contra um sistema que ele não consegue enxergar. O problema é que o gestor é uma figura abstrata para quem está sofrendo; o médico, o enfermeiro e o técnico são figuras reais, de carne e osso. Por que agressões contra o médico? Existe um fenômeno psicológico chamado deslocamento. O paciente está com medo, com dor e se sentindo impotente. Como ele não pode brigar com o Secretário de Saúde ou com o Diretor do Hospital (que ele nem sabe quem é), ele briga com a autoridade mais próxima: você. Nesse cenário, o profissional de saúde acaba exercendo uma função que não foi ensinada na faculdade: a de para-raios de falhas sistêmicas. Você gasta 50% do seu tempo de consulta explicando por que o exame vai demorar ou por que não há previsão de vaga, e apenas os outros 50% cuidando da saúde do paciente. Isso gera um desgaste mental absurdo e é um dos caminhos mais rápidos para o burnout. Os Conselhos Federais: “Agressões a profissionais da saúde não faz parte do Tratamento” É importante saber que os nossos órgãos de classe — como o COFEN/CORENs, o CFM/CRMs, entre outros— estão finalmente tirando esse elefante da sala e transformando a nossa indignação em campanhas oficiais de proteção. Essa não é mais apenas uma conversa de corredor; virou uma pauta institucional urgente. Os conselhos federais e regionais têm se movimentado em várias frentes para tentar frear essa escalada de agressões a partir de campanhas de conscientização. Você já deve ter visto cartazes ou vídeos com o mote “Quem cuida merece respeito”. O objetivo é lembrar à sociedade que o profissional de saúde está ali para exercer uma função técnica e humana, e que o ambiente hospitalar exige uma conduta ética de todos, inclusive de quem é atendido. Além disso, muitos regionais criaram observatórios de violência ou botões de denúncia em seus sites. A ideia é mapear onde as agressões ocorrem com mais frequência para cobrar das prefeituras e estados uma segurança mais ostensiva nesses locais. Essas campanhas mostram que a falha estrutural não pode ser descontada em quem está de plantão. Comunicação: Um “sedativo” eficaz contra o conflito A gente acabou de falar sobre como o médico e a equipe acabam virando para-raios de problemas de gestão, né? Mas existe uma ferramenta que, embora não resolva a falta de leitos ou de insumos, é capaz de desarmar bombas relógio antes que elas explodam: a comunicação assertiva. Muitas vezes, o que leva o paciente ou o acompanhante à agressão não é apenas a demora, mas o silêncio. O silêncio no corredor do hospital soa como descaso, e o descaso é o combustível da revolta. Quando um paciente está na espera, ele não está apenas “gastando tempo”. Ele está sentindo dor, medo e incerteza. Sem informação, a mente dele preenche as lacunas com os piores cenários possíveis: “Eles esqueceram de mim”, “Aquele outro passou na frente porque é conhecido”, “Meu caso não é importante”. A comunicação entra aqui como um ato terapêutico. Informar é cuidar. Métodos que desarmam o conflito Como profissionais, podemos usar algumas estratégias de comunicação que funcionam como verdadeiros anteparos de proteção: Cuidar de quem cuida não deveria ser um luxo, mas uma premissa básica. A gente acorda para salvar vidas, não para colocar a nossa em risco. Se você já passou por isso, saiba que você não está sozinho e que a culpa nunca é sua. Você já se sentiu inseguro no seu local de trabalho ou já presenciou alguma cena de agressão? O que o seu hospital ou clínica fez para te proteger? A segurança no trabalho é um direito inegociável. Vamos debater estratégias para exigir ambientes de trabalho mais seguros lá nos comentários + Posts…
Integração SAMU aos Bombeiros no Mato Grosso (MT)

O governador de Mato Grosso (MT), Otaviano Pivetta, anunciou uma proposta de integrar o SAMU ao Corpo de Bombeiros, com o objetivo declarado de “reduzir a máquina pública”. Para nós, que vivemos o dia a dia da saúde, essa notícia acende um alerta vermelho. Afinal, estamos falando de otimização de recursos ou de uma mudança que pode comprometer o desfecho clínico dos nossos pacientes? O Cofen já se posicionou de forma técnica e firme, e vale a pena a gente destrinchar essa análise. O SAMU não é apenas “transporte” O ponto central que precisamos entender — e que o Cofen reforça — é que o SAMU não é um serviço de logística, mas uma política pública de saúde estratégica. Integração vs. Substituição O Cofen é muito claro: a integração entre as instituições é desejável, mas ela deve ser complementar e não substitutiva. Os Bombeiros são gigantes no salvamento, no desencarceramento e no controle de cenas de risco. No entanto, transferir as atribuições típicas do SAMU para uma instituição que já lida com falta de efetivo e alta demanda operacional pode gerar um gargalo perigoso.
Qual o caminho para o piso salarial ser aprovado?

A gente ouve falar de “piso salarial aprovado” no rádio, “liminar suspensa” na TV e “votação adiada” nos grupos de WhatsApp. Parece que o caminho para o reconhecimento financeiro é um jogo de tabuleiro onde a gente sempre volta duas casas, não é? Para a gente não se perder nas notícias, trouxemos o caminho oficial que um projeto de piso salarial precisa percorrer em Brasília até chegar ao nosso contracheque. Aprenda conosco. Passo 1. O Ponto de Partida: A Câmara dos Deputados Tudo começa com um PL (Projeto de Lei). Ele nasce na Câmara, proposto por um deputado. Passo 2. O Filtro da Revisão: O Senado Federal O Senado funciona como uma câmara revisora. Os 81 senadores analisam o texto. Passo 3. A Caneta Final: A Presidência da República Aqui, o Presidente tem 15 dias úteis para duas decisões: De onde vem o dinheiro? É aqui que o café esfria e a conversa fica séria. Atualmente, não basta apenas aprovar a lei do piso. O STF (Supremo Tribunal Federal) e a Constituição exigem que se aponte a fonte de custeio. É por isso que, mesmo com a lei sancionada, muitas vezes a aplicação fica “travada” por decisões judiciais até que o orçamento esteja garantido. Aprovar a lei é o primeiro passo; garantir o recurso é a maratona. Entendendo a partir do piso da enfermagem Se a gente quer entender como o piso salarial de outras categorias vai caminhar, precisamos olhar para quem já abriu essa trilha: a Enfermagem. O piso deles já foi aprovado, mas a “novela” para ele chegar ao contracheque ensinou lições valiosas sobre o labirinto de Brasília. O caso da enfermagem foi histórico porque não bastou uma lei comum; eles precisaram “blindar” a decisão para que ela não fosse derrubada por ser considerada inconstitucional. O que aprendemos com isso? Hoje, com o piso da enfermagem já em vigor, a gente olha para trás e vê que aprovar a lei é só metade da batalha. Veja os desafios que ainda servem de alerta para outras áreas: Por que isso serve de referência para você? O caminho da enfermagem mostra que não basta o deputado prometer o voto. É preciso: O caminho é burocrático, lento e, muitas vezes, frustrante. Mas entender esse processo nos dá armas para cobrar as pessoas certas. Não adianta apenas cobrar o hospital; é preciso cobrar o deputado pela fonte de custeio e o governo pela transferência de fundos. Lutar pelo piso é lutar pela dignidade de quem não parou nem um segundo quando o mundo parou. Você sente que a sua categoria está mais perto ou mais longe do piso hoje? Qual etapa do processo você acha que é a mais injusta?
Posso dormir no plantão?

Para quem está de fora, pode parecer descaso. Para quem está lá dentro, no terceiro plantão da semana, a gente sabe que o cansaço não é apenas sono, é um risco real para a segurança do paciente. Mas o que diz a regra? Vamos sair do “ouvi dizer” e olhar para o que a lei e os conselhos determinam. O que diz a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) Pela CLT, o plantão de 12 horas (regime 12×36) prevê um intervalo intrajornada de 1 hora para repouso e alimentação. O Parecer CREMEC Nº 11/2021 (Conselho Regional de Medicina do Ceará) Este parecer é um marco importante porque traz o conceito de “Pausa para Descanso Alerta”. A Lei nº 14.602/2023 (Lei do Descanso Digno) Essa é a vitória mais recente para a Enfermagem, mas que serve de norte para toda a equipe multi. Ela determina que as instituições de saúde (públicas e privadas) são obrigadas a oferecer ambientes de repouso dignos. A Realidade vs. A Responsabilidade A lógica deve ser sempre a Segurança do Paciente: A importunação dos vereadores A cena vem se repetindo em vários locais do Brasil: um político, geralmente vereador, chega apontando a câmera para o rosto do médico ou da enfermeira nos horários de descanso, questionando a grande fila de pacientes, o tempo de espera ou a falta de um remédio, como se a culpa fosse de quem está atendendo. O impacto na equipe: Esse tipo de “fiscalização-espetáculo” gera um ambiente de medo e desconfiança. O profissional, que já lida com a pressão da doença, agora precisa lidar com o medo de ser “cancelado” por um vídeo editado sem contexto. O foco errado: Raramente o vídeo mostra a falta de insumos, o aparelho quebrado há meses ou o fato de que há apenas um médico para uma demanda de três. O foco é o “conflito”, porque é isso que gera engajamento em rede social. A quebra do sigilo: Ao gravar dentro de unidades de saúde, muitas vezes expõe-se não apenas o profissional, mas os próprios pacientes em momentos de vulnerabilidade, ferindo preceitos básicos de ética e privacidade. Se você passar por uma situação dessas no seu plantão ou na sua clínica, mantenha a calma. A nossa melhor defesa é a nossa postura técnica, direcionando o político ao gestor da unidade, mantendo a calma e a ética ( pois muitas vezes o que eles querem é o embate para gerar engajamento nas redes), e sempre relate ao seu conselho profissional (eles têm departamentos jurídicos prontos para lidar com o uso político da imagem do profissional). Como funciona o descanso no seu serviço? Existe um ambiente digno ou você ainda precisa improvisar com poltronas quebradas?
Como não levar o seu trabalho para casa

Você termina o plantão ou os atendimentos, se arruma, vai para a sua casa…mas a cabeça ainda fica no hospital. Na saúde, a gente carrega histórias. No consultório, você leva a angústia daquele diagnóstico difícil; na clínica, leva a frustração de um progresso que não vem; na gestão, leva os números que não fecham. Se não tomarmos cuidado, o nosso lar vira apenas uma extensão do trabalho, e a gente nunca descansa de verdade. Levar o trabalho para casa não é apenas um incômodo. É um processo silencioso que corrói camadas essenciais da sua vida. Seu trabalho piora Sem descanso real, a atenção cai, os erros aumentam e a empatia com os pacientes diminui. Sua saúde se deteriora Insônia, hipertensão, síndrome de Burnout. Seus relacionamentos sofrem Parceiros, filhos e amigos passam a disputar espaço com uma presença que está “lá fora” mas mentalmente ausente. A profissão da saúde carrega um peso simbólico único: há vidas envolvidas. Isso cria um senso de responsabilidade tão intenso que qualquer pausa parece um abandono. Somado a isso, a cultura hospitalar ainda glorifica o excesso: quem dorme pouco é “dedicado”, quem não tira férias é “comprometido”. Barreiras físicas e mentais Não importa se você usa pijama cirúrgico ou roupa social, o segredo é criar “marcos de fronteira”. O que seria isso? Estratégias para cada contexto O direito de ser “você e apenas você” Muitas vezes a nossa identidade profissional é tão forte que a gente esquece que existe o “eu” que gosta de cinema, o “eu” que quer brincar com os filhos, o “eu” que só quer olhar para o teto sem pensar em ninguém. Um profissional de saúde que não se desliga acaba desenvolvendo a “fadiga por compaixão”. A gente fica “seco”, “no automático”, ou seja, perdemos nossa empatia e humanização prejudicando até mesmo a nossa relação com os pacientes e colegas de trabalho. A sua pausa é o que devolve o brilho no olho para o atendimento do dia seguinte. Tire o jaleco, mude a conversa, esqueça o WhatsApp do grupo por algumas horas. O mundo não vai parar se você não estiver disponível por uma noite. Pelo contrário: ele vai ganhar um profissional muito mais equilibrado amanhã. Qual é o seu ritual para esquecer o hospital assim que chega em casa? Você consegue se desligar totalmente ou o celular é o seu maior inimigo? Lembrar que somos humanos antes de profissionais é o primeiro passo para não adoecer. Vamos trocar dicas de como “desligar”
Antibióticos e a nova resolução da enfermagem

A partir de agora, a lista de medicamentos que a enfermagem podem prescrever foi ampliada e inclui antibióticos conhecidos, como a amoxicilina, azitromicina e eritromicina. A mudança veio após a Anvisa e o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) atualizarem seus sistemas, autorizando essa indicação. Como era de se esperar, o tema levantou poeira. O Conselho Federal de Medicina (CFM) já se manifestou contra, preocupado com as competências técnicas e a legislação. Mas, antes de a gente entrar nessa “guerra de conselhos”, vamos sentar aqui na copa e conversar sobre o que isso significa no dia a dia. Cofen e CFM A ideia do Cofen é clara: ampliar o acesso. Quem trabalha na Atenção Primária, em programas de saúde da família ou em regiões remotas, sabe como a agilidade faz diferença. Muitas vezes, o enfermeiro já acompanha aquele paciente de perto, conhece o histórico e segue protocolos rigorosos. Por outro lado, o CFM foca na exclusividade do diagnóstico médico e na formação específica para o manejo de certas drogas. Mas, cá entre nós: no leito do hospital ou na salinha do posto, o paciente não quer saber de disputa de títulos. Ele quer alívio, quer cura e quer ser visto. Na vida real, a gente já trabalha de forma mútua. O médico confia no olhar clínico do enfermeiro que está ali 24 horas, e o enfermeiro conta com o diagnóstico preciso do médico para guiar o plano de cuidado. Espaço para todos, foco no paciente A verdade é que a saúde é um território imenso e tem espaço para todo mundo. Quando a gente gasta energia discutindo “quem manda mais”, quem perde é o sistema. O avanço da enfermagem como prescritora em protocolos estabelecidos não precisa ser uma “invasão”, mas sim uma ferramenta para desafogar as filas e fazer a saúde chegar onde ela é mais urgente. Um respiro para quem está no meio disso Se você é enfermeiro e está feliz com a conquista, ou se é médico e está preocupado com os rumos da profissão, respira fundo. As instituições vão debater as leis e os tribunais vão dar a palavra final. Enquanto isso, aqui na realidade prática, o que sustenta o nosso trabalho é a confiança que temos um no outro. Nenhum carimbo é mais forte do que uma equipe que se respeita e trabalha junta. No final do plantão, o que a gente quer é o mesmo: ver o paciente recuperado e saber que fizemos o nosso melhor. Queremos saber a sua opinião sem julgamentos: Como você vê essa ampliação da prescrição pela Enfermagem no seu dia a dia? Você acredita que isso ajuda a agilizar o atendimento ou sente que precisamos de mais debate sobre a formação? Vem participar desse debate no nosso fórum. Vamos conversar com respeito, ouvindo quem está na linha de frente e entende a realidade da ponta.
SAMU: Os desafios de constatar um óbito no asfalto

Esta semana, uma notícia gelou o coração de quem trabalha na ponta: uma médica do SAMU constatou o óbito de uma mulher no asfalto após um atropelamento, mas, na hora de remover o corpo, um socorrista percebeu movimentos torácicos. A paciente foi reanimada e hoje luta pela vida em uma UTI. Para quem está de fora, parece um erro primário. Para quem vive a realidade da rua, esse é um dos maiores pesadelos possíveis. Aqui a gente sabe que o asfalto não é o hospital. Não tem luz perfeita, silêncio ou monitores de última geração. Tem barulho, chuva, curiosos e a pressão de um relógio que corre contra você. A técnica e o caos Constatar um óbito fora do hospital (no APH) é uma responsabilidade imensa e, às vezes, traiçoeira. O protocolo do SAMU possui dois caminhos, mas ambos exigem nervos de aço: Mas por que o erro pode acontecer? Quem já atendeu no meio de uma rodovia sabe: a hipotermia (o corpo frio) e a hipotensão severa (pressão muito baixa) podem esconder os sinais de vida. O pulso fica tão fino que a luva de latex impede o tato. O barulho dos carros e das sirenes impede a ausculta. Roupas grossas ou ferragens de um carro batido dificultam ver se o tórax está subindo. No meio do caos, os nossos sentidos podem ser enganados. Na dúvida, a vida primeiro É por isso que a orientação de ouro no APH é: na dúvida, inicie a reanimação. Fora do ambiente controlado, a tecnologia é limitada. O protocolo existe para nos proteger e proteger o paciente, prevendo que se inicie as manobras e se busque ajuda especializada o quanto antes. Errar para o lado da vida — ou seja, tentar reanimar alguém que talvez já tenha partido — é sempre o caminho mais seguro para a consciência e para a ética. Um recado para quem carrega essa decisão A gente sabe que ninguém sai de casa querendo errar. O peso de uma decisão dessas no meio da rua é algo que poucos entendem. Se você trabalha no SAMU, nos Bombeiros ou no resgate rodoviário, saiba que a sua dedicação em um ambiente tão hostil é gigante. Nós somos humanos, e os nossos sentidos têm limites. Que esse caso sirva de lembrete para a gente nunca baixar a guarda, mas também para acolhermos uns aos outros na dificuldade que é decidir sobre a vida e a morte sob a luz do giroflex. Você que trabalha no APH, já viveu alguma situação onde foi difícil ter certeza se o paciente ainda estava conosco? Como você lida com a pressão de decidir parar (ou não) uma reanimação no meio da rua? Compartilha sua experiência com a gente aqui nos comentários. Ouvir quem vive o mesmo que a gente ajuda a tornar o peso da decisão um pouco mais leve.
