A gente cresce vendo filmes onde os hospitais americanos são impecáveis, tecnológicos e ultrarápidos. Mas, como quem está no “chão de fábrica” da saúde sabe que a realidade tem camadas que o cinema não mostra. Quando olhamos para os EUA comparados ao SUS, a conversa deixa de ser sobre “quem é melhor” e passa a ser sobre “quem consegue cuidar de quem”.

Queremos apresentar nesse post uma análise sobre a saúde de forma geral nos EUA e comparar com a nossa saúde aqui no Brasil. Confira:

Os EUA são uma referência para nós?

Depende do que você está procurando. Se falarmos de tecnologia de ponta, pesquisa científica e tratamentos experimentais, sim, eles são o topo do mundo. Os maiores centros de trauma e as cirurgias mais complexas muitas vezes nascem lá.

Mas, se a pergunta for sobre Saúde Pública (o cuidado com a população como um todo), os EUA são frequentemente usados em congressos mundiais como um exemplo de custo ineficiente. Eles gastam muito mais por pessoa do que o Brasil, mas têm indicadores de saúde (como mortalidade infantil em certas regiões) que assustam para um país tão rico.

E como fica quem não tem dinheiro?

Lá não existe uma “rede única” como a nossa. O atendimento para os mais pobres funciona através de programas específicos:

Além disso, ter o hospital é uma coisa, ter o profissional disponível é outra. Nos EUA, acontece um fenômeno triste:

  1. Baixo Reembolso: O Medicaid (para os mais pobres) paga muito pouco aos médicos. Às vezes, o valor não cobre nem os custos do consultório.
  2. A Recusa: Por causa disso, muitos médicos em consultórios particulares se recusam a atender pacientes com Medicaid.
  3. O Funil: O resultado? O paciente tem o “cartão do governo”, mas não consegue agendar o especialista. Ele acaba indo parar onde? Na emergência dos hospitais para buscar atendimento. Isso gera filas e superlotação.
Bellevue Hospital (Nova York): É o hospital público mais antigo dos EUA. Se você for pobre em NY, o Bellevue é a sua principal referência. Ele é o coração do atendimento para quem tem Medicaid ou não tem seguro nenhum.
Instituto do Câncer, referência de hospital no SUS – Brasil

Mas e os hospitais de médio/pequeno porte?

Essa é uma excelente pergunta. Quando a gente pensa em EUA, logo vem à mente o Grey’s Anatomy, com hospitais gigantescos. Mas os EUA também tem seus Hospitais de Pequeno e Médio Porte, e é aí que a comparação com o nosso SUS fica ainda mais interessante.

Nos EUA, o equivalente ao nosso hospital municipal ou àquela UPA maior são os Community Hospitals (Hospitais Comunitários) e, especificamente nas áreas rurais, os Critical Access Hospitals (CAH).

Os Critical Access Hospitals são pensados para áreas onde o próximo hospital está muito longe. Eles têm regras bem parecidas com os nossos HPPs (Hospitais de Pequeno Porte):

Se entrarmos em um hospital de 20 leitos no interior do Kansas e em um de 20 leitos no interior de Minas Gerais, veremos diferenças gritantes:

Mas não se engane: ter uma estrutura melhor não significa que o sistema funciona melhor para a comunidade.

  1. A Crise dos Pequenos: Enquanto o SUS mantém pequenos hospitais abertos como uma decisão política de estado, nos EUA esses hospitais estão morrendo. Mais de 700 hospitais rurais correm risco de fechar hoje porque “não dão lucro” ou o governo paga pouco pelo Medicare/Medicaid.
  2. O Deserto de Saúde: Quando um hospital desses fecha nos EUA, a cidade morre junto. O paciente precisa dirigir 100km para um parto simples. No Brasil, o SUS tenta “esticar a corda” para manter o HPP aberto, garantindo que o básico esteja ali, na esquina.
  3. A Conta Invisível: Se você for atendido em um desses hospitais “bonitinhos” de pequeno porte nos EUA sem seguro, o valor cobrado será o mesmo de um hospital de luxo. A estrutura é boa, mas o preço pode tirar o seu sono por anos.

Seguros de Vida e Planos de Saúde

Diferente do Brasil, onde o plano de saúde é um “extra”, nos EUA ele é a sua única proteção.

Os custos médicos americanos continuam subindo, e a dívida hospitalar ainda é a maior causa de falência pessoal por lá. Para a gente que está acostumado a tratar o paciente sem olhar para a conta bancária dele, esses valores parecem surreais.

Lá a conta não é uma só. O paciente recebe vários boletos: um do hospital, um do cirurgião, um do anestesista e até um dos exames laboratoriais. Se o anestesista daquela noite estiver “fora da rede” do seguro do paciente, a conta pode triplicar.

Depois de tanto falar sobre as contas e hospitais, a gente acaba chegando numa reflexão que é muito comum na nossa copa: o que a gente faz com tudo isso? Não precisamos ser “fãs” de um sistema e “inimigos” do outro. O olhar maduro é saber que podemos aprender com a eficiência deles sem abrir mão da nossa humanidade.

Se pudéssemos “importar” algumas coisas da saúde americana sem trazer o modelo de cobrança, o nosso dia a dia seria muito mais leve:

Inspirações da Saúde Pública dos EUA (O que podemos “importar”)

Outros pontos interessantes que podemos nos inspirar:

Cultura de Gestão e Processos: Lá, o fluxo do paciente é desenhado para não haver desperdício de tempo. Tudo é protocolado e medido. Isso diminui a sobrecarga da equipe porque cada um sabe exatamente o seu papel no “engrenagem”.

Integração Tecnológica: O prontuário eletrônico deles realmente funciona e “conversa” entre as unidades. O médico da emergência sabe o que o cardiologista prescreveu no consultório há dois meses. Isso é segurança para o paciente e agilidade para nós.

Valorização da Educação Continuada: A cultura de estar sempre se atualizando (como o TAE que comentamos antes) e o investimento em pesquisa clínica são referências. Eles entendem que o hospital também é um lugar de produzir ciência, não só de “apagar incêndio”.

Manutenção Preventiva: Eles não esperam o ar-condicionado pifar ou o tomógrafo quebrar para agir. Existe um rigor com a infraestrutura que faz com que o ambiente de trabalho seja mais funcional e menos estressante.


O que aprender a NÃO fazer igual