
A gente cresce vendo filmes onde os hospitais americanos são impecáveis, tecnológicos e ultrarápidos. Mas, como quem está no “chão de fábrica” da saúde sabe que a realidade tem camadas que o cinema não mostra. Quando olhamos para os EUA comparados ao SUS, a conversa deixa de ser sobre “quem é melhor” e passa a ser sobre “quem consegue cuidar de quem”.
Queremos apresentar nesse post uma análise sobre a saúde de forma geral nos EUA e comparar com a nossa saúde aqui no Brasil. Confira:
Os EUA são uma referência para nós?
Depende do que você está procurando. Se falarmos de tecnologia de ponta, pesquisa científica e tratamentos experimentais, sim, eles são o topo do mundo. Os maiores centros de trauma e as cirurgias mais complexas muitas vezes nascem lá.
Mas, se a pergunta for sobre Saúde Pública (o cuidado com a população como um todo), os EUA são frequentemente usados em congressos mundiais como um exemplo de custo ineficiente. Eles gastam muito mais por pessoa do que o Brasil, mas têm indicadores de saúde (como mortalidade infantil em certas regiões) que assustam para um país tão rico.

E como fica quem não tem dinheiro?
Lá não existe uma “rede única” como a nossa. O atendimento para os mais pobres funciona através de programas específicos:
- Medicaid: É o programa para pessoas de baixa renda. O problema? Ele é gerido pelos estados, então ser pobre no Texas é muito diferente de ser pobre em Nova York. Nem todo mundo que é pobre consegue se qualificar para o programa.
- Medicare: Focado em idosos (65+) e pessoas com deficiências graves.
- A “Dívida Médica”: Para quem está no meio do caminho, ou seja ganha “demais” para o Medicaid, mas “de menos” para um bom seguro, a saúde fica complicada. Uma simples apendicite pode significar uma dívida de $30.000 ou mais. É o desespero de ter que escolher entre a saúde e a casa própria.
Além disso, ter o hospital é uma coisa, ter o profissional disponível é outra. Nos EUA, acontece um fenômeno triste:
- Baixo Reembolso: O Medicaid (para os mais pobres) paga muito pouco aos médicos. Às vezes, o valor não cobre nem os custos do consultório.
- A Recusa: Por causa disso, muitos médicos em consultórios particulares se recusam a atender pacientes com Medicaid.
- O Funil: O resultado? O paciente tem o “cartão do governo”, mas não consegue agendar o especialista. Ele acaba indo parar onde? Na emergência dos hospitais para buscar atendimento. Isso gera filas e superlotação.


Mas e os hospitais de médio/pequeno porte?
Essa é uma excelente pergunta. Quando a gente pensa em EUA, logo vem à mente o Grey’s Anatomy, com hospitais gigantescos. Mas os EUA também tem seus Hospitais de Pequeno e Médio Porte, e é aí que a comparação com o nosso SUS fica ainda mais interessante.
Nos EUA, o equivalente ao nosso hospital municipal ou àquela UPA maior são os Community Hospitals (Hospitais Comunitários) e, especificamente nas áreas rurais, os Critical Access Hospitals (CAH).
Os Critical Access Hospitals são pensados para áreas onde o próximo hospital está muito longe. Eles têm regras bem parecidas com os nossos HPPs (Hospitais de Pequeno Porte):
- Tamanho: Geralmente têm no máximo 25 leitos de internação.
- Serviços: Oferecem emergência 24h, exames básicos de imagem e laboratório, e cirurgias simples.
Se entrarmos em um hospital de 20 leitos no interior do Kansas e em um de 20 leitos no interior de Minas Gerais, veremos diferenças gritantes:
- Tecnologia de base: Mesmo um hospital minúsculo nos EUA costuma ter uma Tomografia Computadorizada, aparelhos de ultrassom de última geração e um sistema de prontuário eletrônico totalmente integrado. No SUS, a gente sabe que muitas vezes o desafio é o filme do Raio-X que acabou ou o ECG que está com mau contato.
- Equipe de Enfermagem: A proporção de enfermeiros por médico nos EUA é muito maior (cerca de 4 para 1, enquanto no Brasil é quase 1 para 1). Isso dá uma dinâmica de cuidado diferente na beira do leito.
- Manutenção: Por serem empresas (mesmo as sem fins lucrativos), a manutenção predial costuma ser mais rigorosa. Dificilmente você verá paredes descascadas ou macas enferrujadas.
Mas não se engane: ter uma estrutura melhor não significa que o sistema funciona melhor para a comunidade.
- A Crise dos Pequenos: Enquanto o SUS mantém pequenos hospitais abertos como uma decisão política de estado, nos EUA esses hospitais estão morrendo. Mais de 700 hospitais rurais correm risco de fechar hoje porque “não dão lucro” ou o governo paga pouco pelo Medicare/Medicaid.
- O Deserto de Saúde: Quando um hospital desses fecha nos EUA, a cidade morre junto. O paciente precisa dirigir 100km para um parto simples. No Brasil, o SUS tenta “esticar a corda” para manter o HPP aberto, garantindo que o básico esteja ali, na esquina.
- A Conta Invisível: Se você for atendido em um desses hospitais “bonitinhos” de pequeno porte nos EUA sem seguro, o valor cobrado será o mesmo de um hospital de luxo. A estrutura é boa, mas o preço pode tirar o seu sono por anos.


Seguros de Vida e Planos de Saúde
Diferente do Brasil, onde o plano de saúde é um “extra”, nos EUA ele é a sua única proteção.
- Seguros (Health Insurance): A maioria das pessoas consegue através do trabalho. Se você perde o emprego, muitas vezes perde o acesso ao médico no meio do tratamento.
- Franquias (Deductibles): Você paga o plano todo mês, mas se ficar doente, ainda tem que pagar, por exemplo, os primeiros $5.000 do próprio bolso antes de o seguro começar a cobrir.
Os custos médicos americanos continuam subindo, e a dívida hospitalar ainda é a maior causa de falência pessoal por lá. Para a gente que está acostumado a tratar o paciente sem olhar para a conta bancária dele, esses valores parecem surreais.
Lá a conta não é uma só. O paciente recebe vários boletos: um do hospital, um do cirurgião, um do anestesista e até um dos exames laboratoriais. Se o anestesista daquela noite estiver “fora da rede” do seguro do paciente, a conta pode triplicar.
- O custo do medo: Um atendimento de emergência, só para o médico te ver e pedir um exame, raramente sai por menos de US$ 500.
- Dívida Vitalícia: Para quem não tem seguro (ou tem um plano ruim), um acidente grave pode significar uma dívida de US$ 100.000.
- O fator geográfico: Ser atendido na Califórnia pode custar o dobro do que no Alabama. Não há uma tabela única; é o mercado quem dita o preço.

Depois de tanto falar sobre as contas e hospitais, a gente acaba chegando numa reflexão que é muito comum na nossa copa: o que a gente faz com tudo isso? Não precisamos ser “fãs” de um sistema e “inimigos” do outro. O olhar maduro é saber que podemos aprender com a eficiência deles sem abrir mão da nossa humanidade.
Se pudéssemos “importar” algumas coisas da saúde americana sem trazer o modelo de cobrança, o nosso dia a dia seria muito mais leve:
Inspirações da Saúde Pública dos EUA (O que podemos “importar”)
- Poder de Vigilância e Resposta (O modelo CDC): O Centers for Disease Control and Prevention (CDC) é a maior referência mundial em inteligência sanitária. Eles conseguem rastrear um surto de intoxicação alimentar por uma alface específica em 24 horas.
- Como nos inspirar: Investir em uma Vigilância Sanitária e Epidemiológica ultra-tecnológica, que use dados em tempo real para prever surtos e agir antes que o hospital lote.
- Como nos inspirar: Investir em uma Vigilância Sanitária e Epidemiológica ultra-tecnológica, que use dados em tempo real para prever surtos e agir antes que o hospital lote.
- Padronização e Protocolos Nacionais: Nos EUA, existe uma cultura muito forte de diretrizes clínicas claras (como as da American Heart Association). Isso garante que o tratamento para um infarto seja muito parecido em qualquer lugar do país.
- Como nos inspirar: Diminuir a “loteria” do SUS, onde o tratamento depende de qual médico está de plantão, criando protocolos nacionais mais rígidos e seguidos por todos os municípios.
- Como nos inspirar: Diminuir a “loteria” do SUS, onde o tratamento depende de qual médico está de plantão, criando protocolos nacionais mais rígidos e seguidos por todos os municípios.
- Investimento Pesado em Pesquisa Clínica Pública: O NIH (National Institutes of Health) investe bilhões de dólares públicos em ciência básica. Muitas das vacinas e remédios que o mundo usa nasceram de dinheiro público americano.
- Como nos inspirar: Valorizar nossos institutos (como Fiocruz e Butantan) não apenas como fábricas, mas como centros de descoberta de ponta, diminuindo nossa dependência de patentes estrangeiras.
- Como nos inspirar: Valorizar nossos institutos (como Fiocruz e Butantan) não apenas como fábricas, mas como centros de descoberta de ponta, diminuindo nossa dependência de patentes estrangeiras.
- Saúde Baseada em Dados (Business Intelligence): Eles são mestres em medir tudo: tempo de espera, taxa de reinfecção, custo por procedimento. Eles tratam a gestão pública com o rigor de uma empresa de alta performance.
- Como nos inspirar: Usar a tecnologia para saber onde o dinheiro está sendo desperdiçado. Saúde pública sem dados é como voar um avião sem painel.
Outros pontos interessantes que podemos nos inspirar:
Cultura de Gestão e Processos: Lá, o fluxo do paciente é desenhado para não haver desperdício de tempo. Tudo é protocolado e medido. Isso diminui a sobrecarga da equipe porque cada um sabe exatamente o seu papel no “engrenagem”.
Integração Tecnológica: O prontuário eletrônico deles realmente funciona e “conversa” entre as unidades. O médico da emergência sabe o que o cardiologista prescreveu no consultório há dois meses. Isso é segurança para o paciente e agilidade para nós.
Valorização da Educação Continuada: A cultura de estar sempre se atualizando (como o TAE que comentamos antes) e o investimento em pesquisa clínica são referências. Eles entendem que o hospital também é um lugar de produzir ciência, não só de “apagar incêndio”.
Manutenção Preventiva: Eles não esperam o ar-condicionado pifar ou o tomógrafo quebrar para agir. Existe um rigor com a infraestrutura que faz com que o ambiente de trabalho seja mais funcional e menos estressante.
O que aprender a NÃO fazer igual
- A “Saúde de CEP” (Desigualdade por Estado): Lá, o Medicaid é gerido pelos estados. Isso significa que um pobre no Mississippi tem muito menos direitos que um pobre em Massachusetts.
- O que valorizar no SUS: O fato de sermos Federais. As diretrizes e os direitos são (ou deveriam ser) os mesmos de Manaus ao Chuí. A centralidade dos principais princípios do SUS protege o cidadão da vontade política do governante local.
- O que valorizar no SUS: O fato de sermos Federais. As diretrizes e os direitos são (ou deveriam ser) os mesmos de Manaus ao Chuí. A centralidade dos principais princípios do SUS protege o cidadão da vontade política do governante local.
- O Foco na Doença em vez da Prevenção: O sistema americano é “hospitalocêntrico”. Ele gasta trilhões para tratar o infarto, mas investe pouco para evitar que o paciente fume ou coma mal.
- O que valorizar no SUS: A nossa Atenção Primária. O nosso Agente Comunitário de Saúde é uma joia que os americanos tentam copiar em comunidades carentes lá, mas sem a mesma força que temos aqui.
- O que valorizar no SUS: A nossa Atenção Primária. O nosso Agente Comunitário de Saúde é uma joia que os americanos tentam copiar em comunidades carentes lá, mas sem a mesma força que temos aqui.
- A Falta de um Sistema de Vacinação Unificado: Vimos na pandemia como a falta de uma coordenação central nacional nos EUA gerou caos. Cada estado fazia uma coisa, cada farmácia tinha uma regra.
- O que valorizar no SUS: O nosso PNI (Programa Nacional de Imunizações). É uma máquina de guerra logística que, quando bem gerida, dá um banho em qualquer país rico.
- O que valorizar no SUS: O nosso PNI (Programa Nacional de Imunizações). É uma máquina de guerra logística que, quando bem gerida, dá um banho em qualquer país rico.
- Saúde como Mercadoria: Nunca devemos aceitar a ideia de que o cartão de crédito é o primeiro documento a ser apresentado. Ver a saúde como lucro transforma o paciente em cliente e o médico em vendedor.
- Dívida Médica: O conceito de alguém “perder a casa” para sobreviver a um câncer é uma falha ética profunda. O sistema deles é eficiente em curar a doença, mas muitas vezes destrói a vida financeira da família no processo.
- Abandono das Áreas Rurais por “Falta de Lucro”: Aprender que um hospital não pode ser fechado só porque não dá retorno financeiro. Na saúde pública, o “lucro” é a vida salva, não o saldo bancário da unidade.
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- Saúde nos EUA vs. Saúde no Brasil
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